Minha cabeça dói. Tomo tantos comprimidos quanto uma criança come confetis.
Não sei pra que tanta dor. (Se soubesse provavelmente não a sentiria.)
O fato é que a minha dor está dizendo de mim. Dizendo sem palavras. Dizer sem palavras é uma coisa mesmo doída.
Queria eu emprestar palavras pra minha dor de cabeça. Pra ela me falar de um jeito inteligível e indolor.
Céus! Pra que tanta dor assim? Porque não caibo em mim. Porque a minha alma tenta fugir do meu corpo, que não deixa. Ele a amarra aqui, com esta dor. Então é isso: dor de cabeça é a alma tentando fugir do corpo. Dor de cabeça é a coleira com a qual o corpo, egoísta, segura a alma consigo.
Ah, como eu queria fugir daqui! Como eu queria férias de mim. Como eu queria dar uma escapadinha do meu corpo. Eu voltava, depois. Sou boa moça, tenho palavra. Mas agora palavra é o que me falta. Eu só queria respirar em outro corpo. Eu só queria dançar com outros braços, andar com outras pernas. Amar com outro coração, pensar com outras palavras.
Porque palavras, assim como o corpo, me prendem e me libertam. Palavras me acorrentam, sim. Porque só posso dizer as palavras que já existem, para me comunicar com o outro e comigo. Porque o que quero dizer, nunca é bem o que eu digo, e por isso preciso falar e escrever tanto.
Palavras me libertam, sim. Porque quando eu as domino, a cabeça não lateja. Porque se escrevo e falo, é pra tentar me libertar uma existência indefinida. Porque é o único instrumento que tenho.
O corpo me liberta porque me permite ir, vir e sentir. Porque me dá células para existir. Me dá cérebro para refletir.
Nenhum comentário:
Postar um comentário