sábado, 7 de maio de 2011

Minha cabeça dói. Tomo tantos comprimidos quanto uma criança come confetis.
Não sei pra que tanta dor. (Se soubesse provavelmente não a sentiria.)
O fato é que a minha dor está dizendo de mim. Dizendo sem palavras. Dizer sem palavras é uma coisa mesmo doída.

Queria eu emprestar palavras pra minha dor de cabeça. Pra ela me falar de um jeito inteligível e indolor.

Céus! Pra que tanta dor assim? Porque não caibo em mim. Porque a minha alma tenta fugir do meu corpo, que não deixa. Ele a amarra aqui, com esta dor. Então é isso: dor de cabeça é a alma tentando fugir do corpo. Dor de cabeça é a coleira com a qual o corpo, egoísta, segura a alma consigo.

Ah, como eu queria fugir daqui! Como eu queria férias de mim. Como eu queria dar uma escapadinha do meu corpo. Eu voltava, depois. Sou boa moça, tenho palavra. Mas agora palavra é o que me falta. Eu só queria respirar em outro corpo. Eu só queria dançar com outros braços, andar com outras pernas. Amar com outro coração, pensar com outras palavras.

Porque palavras, assim como o corpo, me prendem e me libertam. Palavras me acorrentam, sim. Porque só posso dizer as palavras que já existem, para me comunicar com o outro e comigo. Porque o que quero dizer, nunca é bem o que eu digo, e por isso preciso falar e escrever tanto.

Palavras me libertam, sim. Porque quando eu as domino, a cabeça não lateja. Porque se escrevo e falo, é pra tentar me libertar uma existência indefinida. Porque é o único instrumento que tenho.

O corpo me liberta porque me permite ir, vir e sentir. Porque me dá células para existir. Me dá cérebro para refletir.

Mas também, o corpo me prende. Dormindo, acordada. Sonhando, na realidade. Tenho que me virar com o mesmo corpo durante toda uma vida. Não posso ir e deixá-lo, ou ficar e levá-lo. Tenho que passar todo o tempo da minha vida tentando encaixar minha alma no meu corpo. As vezes consigo, e sou feliz. As vezes isso me exige tanto esforço, que a enxaqueca aparece. Nem corpo, nem alma me obedecem. A enxaqueca me toma. Eu tomo o comprimido. Minha existência me comprime. Me entristece, não me deprime

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